Diretamente de Milão: Saiba mais sobre o trabalho de Coolhunting

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Atualmente vivendo em Milão, a capital da moda italiana e referência mundial de novas tendências, Fah Maioli trabalha com coolhunting e, especialmente para o Funny Girl, conta tudo sobre o que envolve sua profissão! Como Trend Analyst, ela pesquisa, analisa e compartilha as tendências comportamentais e projetuais que influenciam o desenvolvimento de produtos e serviços no Design e na Moda.

FAH

O que te levou a trabalhar com tendências?

Creio que tenha sido meu imprinting. Desde pequenina busquei o porquê das coisas, me alfabetizei e aprendi a ler precocemente porque eu era curiosa. Sempre fui um tipo orientado para a exploração do mundo, com as suas manifestações artísticas e culturais e adiciono algo muito importante: nunca tive preconceitos, coisa que me colocou desde muito cedo em contato com a diversidade, que é fundamental para compreender o mundo. Todas estas características juntas me guiaram a este caminho profissional de pesquisa (pura curiosidade) e análise (essencial o background artístico-cultural), onde, na raiz de tudo, existe uma fome de conhecimento (para compreender o mundo).

Como é o teu trabalho de coolhunter e trend analyst? Para que tipo de coisas você está de olhos abertos?

Todos podemos ser Coolhunters, se entendermos que a função deste é observar e recolher informação. Já o Trend Analyst é quem tem uma maior experiência pessoal e profissional e quem pesquisa, analisa e compartilha esta informação, traduzindo esta em cenários e aplicações concretas para empresas, por exemplo.
É uma atividade diária, em que trabalho e vida não têm fronteiras definidas. Acordo e durante o café já leio uma dezena de sites do mundo todo, juntamente com mais de uma dúzia de revistas impressas, nos quais analiso desde os movimentos econômicos até os livros que estão recomendando.  No resto do tempo faço o que meu mestre Domenico de Masi chama de ócio criativo: viajo muito, perambulo pelas ruas de Milão, vou até o sebo mais próximo ver se encontro uma raridade e por aí vai. Simplesmente vivo e sinto o Zeitgeist, como uma verdadeira Dandy contemporânea. Não acredito que a minha Intuição, que é meu maior dom nesta profissão, possa ser potencializada dentro de um escritório, sinceramente.

2012-10-28 15.51.22-1Você relaciona muito a moda atual com a arte. Explique um pouco esta relação?

Este tema é minha paixão atual. Bem, a arte interessa à moda, sobretudo porque vende ideias. Ao artista, ao contrário, a moda interessa porque é vista como a chave para poder entrar no mundo da grande produção: podemos dizer que o artista cerca na moda a massificação. E quando a moda começa a se interessar pela arte, ela começa a experimentar com inteligência, tanto nas formas como nos materiais. Essa contaminação está em toda a parte: pensemos em Drácula de Coppola, em que seus vestidos eram assinados por Eiko Ishioka (não foi um caso que foi premiado com Oscar em 1992).
A primeira – e polêmica – edição da Biennale di Firenze em 1996, dedicada a «Arte e Moda», na verdade, foi onde começou todo este discurso atual. Foi esta manifestação artística que trouxe pela primeira vez ao mundo a discussão da relação entre inspiração artística e fashion design.
Na atualidade temos Issaye Miyake, que é um símbolo da relação entre arte e moda, começando por suas jaquetas de papel. Rei Kawakubo e Yoshi Yamamoto o seguem na mesma linha, assim como Alexander McQueen, John Galliano, Karl Lagerfeld e Miuccia Prada.

A tradução literal de cool hunting é “caçar o legal/descolado”. O que, nestes anos que você trabalha com isso, foi a descoberta mais cool que já achou?

O cool para mim é sempre um movimento, uma atitude, um fenômeno, um local específico, uma “ação no mundo” que, ao ser contemplada – descoberta – te dá aquela sensação de “puxa, isto é tão simples, mas é tão interessante. Como é que ninguém tinha colocado isso no mundo antes?”. Pessoalmente vibro muito com as descobertas que faço na simplicidade do olhar das ruas. Nesta perspectiva, ter descoberto o trabalho de Cleet Abraham – ele transforma os sinais das estradas de Milão e Firenze – é algo que considero um delicioso achado.

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Em alguns posts de seu site você comenta sobre trend setting. Como alguém ou alguma marca se tornar trendsetter? Você tem alguma tendência que quer lançar?

O trendsetter – aquele que lança uma tendência – é mais antigo do que imaginamos. Lembremos de Luis XV e sua Madamme de Pompadour, que lançaram desde a moda das grandes perucas reais, a chinoiserie e o estilo rococó, até o grande empresário italiano Gianni Agnelli, que usava o relógio em cima do punho da camisa, ação copiada por todos os executivos europeus dos anos 70.
Um trendsetter não é, ele simplesmente surge: um dia você sai na rua com a calça de seu namorado porque a sua não estava servindo e zás, a imprensa te fotografa e a Levi’s aproveita, lançando o “boyfriend jeans”.
O pré-requisito para ser seguido é ser famoso, e como não sou, dificilmente a moda que eu gostaria de lançar realmente aconteceria! (risos)

O que te levou a Milão? E o que torna a cidade tão importante para observar tendências e comportamentos no design e na moda?

Um ano sabático me trouxe à Itália para fazer um Master. No meio do caminho conheci todos os mestres que admirava e com os quais pude então compartilhar e aprender direto da fonte. Foram eles Domenico de Masi, Elio Fiorucci, Alejandro Jodorowsky, Francesco Morace, Li Edelkoort, dentre outros.

2012-10-28 15.52.27Milão e seu hinterland possuem centenas de bottegas de costura e pequenas e médias fábricas de manipulação e desenvolvimento de matéria-prima para o setor, bem como mão de obra altamente especializada e preparada para os desafios da Moda na contemporaneidade, original de uma longa história de tradição e amor pelo produto de Moda. Ela jamais poderá garantir o frescor das trends que vemos surgir nas ruas de Londres, Nova York, São Paulo, que nascem de uma contaminação cultural entre várias etnias, infinitas expressões musicais, artísticas, étnicas e gastronômicas, mas será – por um bom tempo ainda – uma cidade em que podemos exprimir a própria vontade de experimentar e produzir de forma concreta o estilo e a elegância que a caracteriza no mundo.


Se olharmos Milão como um território em que a Moda, o Design, a Arte, a Arquitetura, o Artesanato, o gosto pela Estética, o passado artístico, o italian way of live e o estilo e elegância únicos ao mundo se misturam constantemente, originando um tecido inovador, aí, sim, Milão pode ser considerada uma cidade rica para observarmos. Com todas essas qualidades, ela é única no mundo.

Se não Milão, que outra cidade no mundo você gostaria de estudar estes comportamentos?

Gosto muito de Paris e de Lima, esta última é uma cidade pulsante, colorida e criativa. Morei lá algum tempo e tenho saudades do calor do povo, do perfume dos mercados e da sua arte religiosa e popular. Sem falar da sua gastronomia!

É impossível falar de moda hoje sem pensar nos inúmeros blogs e sites. Qual o impacto no comportamento dos consumidores que você tem observado nestes novos meios de comunicação?

Bem, a moda alargou-se: todo mundo hoje pode ter acesso ao que é Estilo e, então, esta democratização da informação te faz escolher e consumir melhor. Vejo como uma grande liberação dos códigos massacrantes da indústria da Moda.

2012-10-28 15.52.38-3Como uma interessada em mudanças, como você imagina que será a moda e design daqui 20 anos?

Sabemos que a tanto a moda como o design são fenômenos variáveis no tempo, mas que seguem ciclos que se representam à distancia de alguns anos, precisamente 50, então diria que fora as formas, cores e tecidos que provavelmente ainda terão a mesma configuração (uma saia continuara a ser uma saia), a grande mudança será a forma como produziremos esta moda e este design. Acredito fortemente em produtos fabricados DIY (do it yourself), através de impressão 3D com matéria-prima biológica.

Conte um pouco sobre o curso que você ministra.

O Curso de COOLHUNTING (representado no Brasil pela Observatòrio, e na Itàlia pela Cultural Travel in Italy) é fundamental para quem atua ou quer atuar como pesquisador de tendências no Design e na Moda ou que ainda é Designer ou Estilista e quer saber quais serão as tendências futuras nestas áreas. O curso dá as ferramentas para se tornar um Coolhunter e possibilita o encontro com o mundo do Made in Italy, repleto de informações dos mundos da Arte, da Cultura, da Arquitetura, da História e dos comportamentos de consumo no dia-dia desta cidade cheia de inputs criativos. Como tivemos uma grande demanda, a partir deste ano ele é oferecido também de forma Individual (para quem já está na cidade) e ainda online para os profissionais brasileiros quem não possam vir até Milão, mas querem se profissionaliza.

Para mais informações acesse nossa página.

 

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