Especial “Os Miseráveis”: Crítica do filme #2

Les-Miserables-2012
Entre 2002 e 2003 começaram a rolar os primeiros boatos sobre uma produção cinematografica de Les Miserables. Em todos os sites do musical, fãs postavam as suas opiniões de como deveria ser a adaptação e quem deveria fazer parte do elenco. E claro, os atores admiradores da peça ficaram atentos a todo e qualquer casting call. Foi apenas em meados de 2011, porém, que começaram a liberar alguns nomes já contratados e chamar para audições dos personagens não selecionados ainda.Após a contrataçao do diretor Tom Hooper, os primeiros nomes a serem chamados foram Hugh Jackman (Valjean) e Anne Hathaway (Fantine), duas escolhas bastante óbvias. Com o passar do tempo, Sasha Baron Cohen (Thenárdier), Helena Bonham Carter (Mme Thénardier) e Russell Crowe (Javert) tiveram seus contratos assinados, deixando apenas o elenco mais jovem ainda para ser escolhido.Les-Miserables-19Poucos meses depois, Eddie Redmayne (Marius) e Amanda Seyfried (Cosette) foram os últimos hollywoodianos a serem chamados. Deixando espaço para dois atores que viriam diretamente dos palcos: Samantha Barks, que já fazia Éponine em Londres e tinha participado do 25th Anniversary Concert, e Aaron Tveit (Enjolras), que é hoje considerado um dos atores mais talentosos da sua geração.Para os fãs de carteirinha, é obvio que o filme não foi tão perfeito quando deveria ser. Mas, a produção foi extremamente bem feita e a escolha do elenco não poderia ter sido melhor. Em geral, o longa possui muitas coisas boas e muitas coisas que acabaram se perderam na adaptação.A principal reclamação  do críticos foi quanto a voz de Russell Crowe. Eu concordo, o personagem Javert geralmente é um dos melhores cantores e sofreu uma decaída pela falta de experiência do ator. Em termos de atuação, Russell está excelente, então talvez teria sido melhor que ele tivesse um dublador, como fizeram em My Fair Lady para Audrey Hepburn e The Sound Of Music para Christopher Plummer. Infelizmente, ao decidir filmar as canções ao vivo, ficou impossível usar um dublador. As vozes realmente não foram das mais fortes, mas isso não é tão importante para o filme uma vez que a atuação é o mais relevante. Além dos dois cantores de musicais Tveit e Barks, em geral as vozes eram limitadas. Sim, Anne Hathaway está impressionante e Eddie Redmayne é uma excelente surpresa. Assim como Hugh Jackman, que também superou todas as expectativas.

Les-Miserables-31Entretanto, qualquer pessoa que já assistiu ou ouviu uma gravação de produção de palco da peça pode concordar que as vozes do filme são inferiores. Por abrir aos atores que escolhessem como interpretar as músicas, um pouco se perdeu de qualidade de musical. As canções ficaram lentas e pequenas, como foi o caso de “Who Am I?”. Outro exemplo é o Foreman, que a interpretação foi tão interna que se eu tivesse fechado os olhos e não entendesse inglês teria achado que o personagem estava calmo.A primeira coisa que eu achei fantástica foi a explicação de que a história se passa após a revolução francesa, já na posse de um novo rei. A maior parte do público acha que Les Miserables é sobre a revolução francesa, mas na verdade é durante uma revolução pequena de estudantes após a revolução francesa. Isso foi comentado no filme algumas vezes, o que não acontece na peça.

LesMiserables-1024x649Houve muitos cortes de falas e músicas que prejudicaram o musical, mas algumas cenas que foram adicionadas ficaram bem interessantes, como os diálogos de Javert e Valjean entre “At the End of the Day” e “Runway Cart”, em que Javert se apresenta a serviço de Valjean quando este é o prefeito da cidade, e depois que o acusa de falsa identidade. Por outro lado, o corte na fala de Valjean quando questiona Javert “Come to that, can you be sure, that I am not your man?” tirou um pouco daquela superioridade espiritual que ele tinha diante de Javert, que é um homem de regras.

Esses cortes e trocas de falas foram um pouco prejudiciais em alguns momentos. Na cena do Bishop ele fala “I have saved your soul for God” ao invés do original “I have bought your soul for God”. O Bought ao invés do Saved dava o sentido de que Valjean acreditou que fez um acordo com Deus, que seria o contrário de vender a alma para o diabo. Outro exemplo é em “At the End of the Day”, quando Valjean fala no filme “I am the Mayor of this town, I run a business of repute” e na peça é o contrário, e musicalmente fecha melhor.

Les MiserablesOs estudantes foram os mais prejudicados com o corte de falas, o que acabou tornando-os sem personalidade e um tanto irrelevantes para a história. Foi bastante decepcionante ver Les Miserables sem a famosa frase “Students, workers, everyone! There’s a river on the run…” no ABC café entre outras frases musicais de Enjorlas nas Barricadas, ou o diálogo das prostitutas em “Look Down”: “Leave the poor old cow, Move it Madaleine…”. Dos cortes musicais, acho que o mais prejudicial foi “Dog eats Dog”, dito quando realmente percebemos o quão desumano o Thénardier é, do jeito que foi colocado no filme, o casal era apenas aproveitador e engraçado.

Além da troca das falas que não me agradou muito, foi troca da ordem das músicas. “I Dreamed a Dream” ficou após “Lovely Ladies”, o que deixou as cenas mais longas, porque ficaram muitas músicas lentas juntas, e perdeu aquele efeito de quando Fantine é demitida e ela já está no fim do poço e canta sobre o seu passado bom e o que esperava para o futuro, e ao ir para “Lovely Ladies”, como a personagem afunda mais ainda. Já “Do you Hear the People Sing?”, uma das principais músicas da peça, foi transferida para após “One Day More!”. A cena, entretanto, está lindíssima e mostra o início da revolução. Apesar da música ter perdido muito do seu destaque no filme (ao ponto de não entrar no álbum de Highlights), ela foi reprisada logo antes da última batalha quando os estudantes decidem continuar mesmo sabendo que vão morrer. E quem puxa a música é Gavroche. O que me leva a outro momento genial do filme entre Javert e Gavroche após a batalha final, que não escreverei para evitar spoilers.

les-miserables-a-personal-history-reviewed-L-oEVtsKEnjolras e Éponine foram dois personagens extremamente importantes na peça que foram um pouco prejudicados pela direção do filme. Com o corte e nova divisão de falas, Enjolras ficou menos líder da revolução e mais apoio para Marius e, por consequência, o público não se apega e a morte deles é menos significativa. O que tem sido bastante discutido é que Aaron Tveit poderia ter feito Marius, porque o seu tipo físico e timbre de voz eram perfeitos para o papel. Eu adorei a performance de Eddie Redmayne, mas concordo que Aaron teria sido um melhor Marius do que ele foi Enjolras. Outra forte reclamação é a ausência do prólogo de “On My Own”, algo super marcante do musical que foi cortado desnecessariamente.

O filme teve coisas realmente geniais, uma delas foi a presença de Colm Wilkinson e Frances Ruffelle em personagens secundários. Colm está como o Bishop of Digne, e Frances como uma das prostitutas em “Lovely Ladies”. Quando o Bishop abre a porta e fala “Come in sir for you are weary, and the night is cold out there” e é Colm Wilkinson que está fazendo o personagem, todos os fãs respiraram fundo! Além disso, não conseguia parar de pensar o que Hugh Jackman estava sentido ao fazer a cena com o ator que originou o seu personagem.

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(SPOILERS)
Outra referência genial à peça foi a pose que Enjorlas morre, ao mesmo tempo que a cena da morte seja nova, a pose clássica permaneceu. Essa pose é tão importante na peça e tão característica que quando eles estavam se encaminhando para esta cena, admito que temi que esta referência não tivesse sido levada em consideração.

Uma coisa que precisa ser destacada é o excesso de close ups. Mesmo que quisessem mostrar que os atores estavam cantando ao vivo e para isso era melhor o uso de câmera na mão, é um filme muito longo para isso. Poderiam ter mostrado mais os cenários e a cena geral. Os close ups acabaram deixando desapercebido coisas importantíssimas, como o momento em que Jean Valjean resolve quebrar a sua parole e rasga o papel que ele recebeu de Javert no início do filme. Assim como na música “Stars”, em que o que menos se viu foram estrelas.

A grande gafe, que deve ter chocado todos os fãs da peça foi o corte da personagem Éponine na última cena quando Valjean está morrendo e os fantasmas dela e de Fantine aparecem e cantam “Take my hand I’ll you to salvation. Take my love, for love is everlasting”. Entretando, a produção conseguiu compensar um pouco com a cena linda final de todos os mortos na barricada cantando a versão Epilogue de “Do You Hear The People Sing?”.

3 comentários

  1. Talvany Carlotto · · Responder

    Acho que a perda mais significativa pra mim foi o “Let other rise to take our place, until the earth is free”. Como ficou no filme, a morte deles ficou ainda mais meaningless, deve ser por isso que o Redmayne ficou tão desesperado em “Empty chair at empty tables”. =P

    Já o melhor ganho foi o epílogo, que ficou lindo ;D

    Mais uma vez, obrigado por compartilhar tuas impressões, Miriam!

  2. hum… crítica de fã.
    eu gosto disso, mas sinceramente? Esse foi meu primeiro contato com essa história e não senti falta de nada do que você cita.
    inclusive, acharia muito estranho ver a Éponine guiando Valjean junto com Fantine no final, já que ela não teve relação nenhum com esses dois personagens durante todo o filme…

  3. Oi Mikes!
    Claro! Concordo contigo. Quem só viu o filme, realmente não vai sentir falta de nada. Acho que até fica historicamente mais claro que na peça. Mas para quem conhece a peça, fica claro que Eponine e Enjorlas foram personagens bastante reduzidos no filme, então de fato seria bizarro destacá-los no final do filme. Mas, infelizmente por tirar a personagem da cena final, se perdeu uma linda harmonia musical que ficava com as três vozes no final. :)

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