Crítica: Mary Poppins na Broadway

Crítica escrita para o site Lérias & Lixos e publicada no dia 16 de março de 2011.

Tudo começou em 1934, ano de lançamento da série de oito livros da escritora Pamela Lyndon Travers com o título “Mary Poppins”. Em 1964, depois de 26 anos de planejamento e extremas modificações, estreou nos cinemas a adaptação feita pela Disney sobre a babá mágica que voa com seu guarda-chuva. O filme foi estrelado por uma das maiores atrizes de musicais de todos os tempos, Julie Andrews, acompanhada por Dick Van Dyke como o adorável limpador de chaminés Bert.

A primeira montagem teatral foi realizada em Londres, em 2004, dirigida por Richard Eyre juntamente com Matthew Bourne, também coreógrafo da peça. A versão teatral contém algumas das músicas originais do filme (escritas e musicadas pelos irmãos Richard M. Sherman e Robert B. Sherman), assim como músicas originais, feitas por George Stiles e Anthony Drewe. Quanto ao enredo, a peça mistura elementos do livro e do filme. Algumas passagens, como a estátua viva do parque, que havia sido retirada do filme, volta à peça. Outras partes do filme, no entanto, são omitidas na peça, como os personagens Tio Albert e Almirante Boom. Mais um exemplo dessa mistura é o desenvolvimento de Bert. No livro não é dada muita importância ao personagem, porém no filme e na peça ele é fundamental.

Após alcançar o sucesso nos palcos ingleses, “Mary Poppins” foi imediatamente reproduzida na Broadway, no New Amsterdam Theater, em plena Rua 42. Com pequenas diferenças da versão de West End, sua estreia aconteceu em novembro de 2006. Desde então assumiram os papéis principais os atores Ashley Brown, Scarlett Strallen, Adam Fiorentino, Christian Borle e Nicolas Dromard. Porém, desde 24 de agosto de 2010, quem vai ao espetáculo da Broadway tem o prazer de assistir a dupla que originalmente deu vida aos personagens Mary Poppins e Bert em sua primeira apresentação em Londres, Laura Michelle Kelly e Gavin Lee.

Aclamada pelo The New York Post como “uma mistura maravilhosa de música, coreografia e arte”, o musical teve sete indicações ao Tony Awards de 2007 (coreografia, iluminação, cenário – a qual saiu vencedor -, figurino, trabalho cênico, melhor ator, melhor atriz, e o prêmio máximo, melhor musical).

As cortinas se abrem e somos apresentados a Cherry Tree Lane (ou Rua das Cerejeiras, abrasileirando), onde fica a casa da Família Banks. O Sr. Banks é o pai ocupado, metódico e até mesmo insensível; a Sra. Banks é a mãe que tenta cuidar de tudo e de todos, e levar uma vida normal. As crianças Jane e Michael são pestinhas que fazem questão que nenhuma babá pare em casa, mas apenas para chamar a atenção do alienado pai, é claro. A casa ainda conta com uma cozinheira sem muita paciência e um ajudante atrapalhado, que apesar de não ter muitas falas na peça, arranca risos da plateia cada vez que aparece.

Mary Poppins é a babá, como nenhuma outra, que chega para botar ordem na casa. Com seu jeito extrovertido e decidido, não dá nem chances para uma possível recusa do Sr. Banks. Poppins não demora muito também a conquistar as crianças. Assim que chega ao quarto, desfaz sua mala da maneira mais incomum e mais mágica possível. Nesse momento não são apenas as crianças Banks que ficam impressionadas ao ver uma comprida luminária sair da mala ou uma cama aparecer do nada enquanto o lençol é esticado. Como em um show de mágica, todos ficam atentos, prontos para pegar uma escapulida e descobrir como aquilo é realmente feito. Sem nenhum sucesso, claro, afinal se deixar levar pela magia da história é a melhor opção.

É aí que percebemos que não estamos lá apenas para assistir a um espetáculo infantil com a qualidade Broadway, mas sim para voltarmos a ser crianças por aquelas próximas duas horas, consciente ou inconscientemente. Broadway, aliás, é de fato o lugar que você espera a melhor qualidade em termos musicais, incluindo aí canto, coreografia, interpretação, cenário, luz e som. Mas ainda assim, não tem como não se impressionar e ficar sentado na cadeira sem piscar e, muitas vezes, de boca aberta.

Uma das coisas que mais me chamou atenção nessa apresentação foi o ator mirim David Gabriel Lerner. As crianças na Broadway costumam ser tão talentosas e competentes quanto os adultos, mas o pequeno Michael Banks foi especial. Daqueles que quando você percebe lá está ele, novamente no seu foco. Divertido e com ótima interpretação, quando chegava a hora de dançar, não tinha pra ninguém.

Destaque para a canção “Supercalifragilisticexpialidocious”, o ponto alto do espetáculo. Enquanto no filme os personagens adentram um dos quadros pintados por Bert e as cenas da pintura são em animação, nos palcos, é a iluminação e o figurino que se transformam, enquanto a vizinhança se torna amigável e um dançarino incrível dá vida a uma estátua. Com maior duração e mais desenvolvimento do que no filme, é a hora que a plateia vai à loucura. É também a música que dá uma colher de chá ao fim da apresentação, após os agradecimentos. Só para você ficar com aquele gostinho de quero mais e a certeza de que não vai dormir até conseguir pronunciar direitinho a maior palavra do mundo, que após o sucesso do filme teve sua definição garantida no dicionário.

 

Sete novas músicas foram adicionadas na produção teatral: “Cherry Tree Lane”, “Practically Perfect”, “Being Mrs. Banks”, “Precision and Order”, “Playing the Game”, “Brimstone and Treacle” e “Anything Can Happen”, uma das minhas favoritas. Já “Sister Sufragette”, “The Life I Lead”, “Pavement Artist”, “Stay Awake”, “I Love to Laugh”, “A British Bank” e “Fidelity Fiduciary Bank” não estão na peça.

Outra mudança é a aparição da malvada babá de Sr. Banks, Miss Andrews, durante uma breve ausência de Mary Poppins. Após ser dada como exemplo pelo próprio Sr. Banks, vemos que na verdade ele nunca superou a ditadora babá. Mas, ali, ele encontra a oportunidade de finalmente resolver seus medos e traumas do passado.

Como fã de grandes coreografias, outro momento marcante foi a impressionante “Step In Time”, quando os limpadores de chaminé londrinos se reúnem para uma grande festa nos telhados com sapateado e poeira de sobra (veja no vídeo abaixo).

 

Além da mala de Mary Poppins no início da peça, diversos outros truques são realizados no decorrer do espetáculo. Exemplo disso é a subida na escada pelo corrimão, também presente no filme, e uma escalada na parede e no teto por Bert (a qual, devo admitir, fiquei como uma boba me perguntando como ele fazia aquilo! Claro, a famosa cordinha. Mais uma prova da qualidade da produção e do quanto somos absorvidos pela história).

O truque mais esperado é o vôo de guarda-chuva, realizado logo antes do intervalo quando Mary Poppins deixa a casa dos Banks com apenas um recado de “até logo” para as crianças, e se encontra com Bert no telhado, onde cantam a premiada canção “Chim Chim Cher-Ee”. O vôo em si é um tanto quanto decepcionante, após tanta expectativa, o que vem a cabeça é “só isso?”. Não, não é. O vôo mesmo é no final da peça, quando Mary Poppins termina seu trabalho, deixando a Família Banks com um pai de verdade, e vai embora de vez. Aí sim é incrível. Ela voa por todo o teatro, partindo do palco até o teto, avançando pela plateia, chegando praticamente ao balcão, uma viagem que faz todos, não importa aonde estejam sentados, ver Laura Michelle bem de perto. Uma despedida arrebatadora.

Ao mesmo tempo em que a peça é mais adulta do que o filme, com personagens e elenco encantadores e divertidos, a produção faz a plateia (incluindo fãs e quem nunca ouviu falar em Mary Poppins) voltar a ser criança.

Apesar do sucesso, Mary Poppins possui uma das tabelas de preço mais acessíveis, se tornando um programa indispensável para quem está em Nova York.

3 comentários

  1. esse é um dos musicais que eu mais tenho vontade de assistir. Será que algum dia vem para o Brasil?

    1. Tem que vir, Mike! É muito incrível, não teve ninguém que assistiu e não recomendasse. O Brasil já tem cacife e publico para trazer, vamos esperar!

  2. […] próximos musicais a serem produzidos por eles em parceria com a Disney serão A Pequena Sereia e Mary Poppins! Todos comemora de nooovo! o/ Share this:TwitterFacebookGostar disso:GosteiSeja o primeiro a […]

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