Crítica: A Árvore da Vida

Para quem não sabe, além de ser colaboradora aqui no Funny Girl, também escrevo para um blog de cultura nerd (o Tardis) e sou diretora de um site de cinema (o Cine Splendor). Assim, como nossa CEO, Maiara, abriu espaço para críticas aqui no blog, vou aproveitar e trazer um pouco mais de cinema para vocês!

A crítica abaixo foi, originalmente, publicada no Cinema&Afins (no dia 18/08/2011) e, posteriormente editada e transferida ao Cine Splendor em 18 de fevereiro.

Vale a pena conferir, afinal, o filme é um dos selecionados e concorrentes na categoria de “Melhor Filme” no Oscar deste ano!

A existência de uma Árvore da Vida é reconhecida por inúmeras crenças na forma de teorias que, embora sejam diferentes, tem mesmo significado em essência – inclusive na ciência. Na Bíblia, é uma das árvores colocadas por Deus no centro do Jardim do Éden, sendo a outra a “Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal”; na Cabala, é um conceito, uma árvore é formada por dez emanações de Ain Soph, algo como uma essência universal que se manifesta em quatro diferentes planos interconectados; e na biologia é uma árvore Filogenética que representa a evolução dos seres vivos. Se disséssemos que Terrence Malick não procurou entender cada uma dessas diferente significâncias, estaríamos mentindo, visto que todas são representadas no seu novo filme, uma obra universalista que não agradará somente àqueles que buscam por blockbusters, filmes sem essência que não interagem com o “interior” do espectador.

Na trama somos apresentados aos significados da vida e fé através do decorrer da vida da família texana O’Brien, situada em meados dos anos 50. Intercalando passagens que se propõe a explorar temas surrealistas, representações das fases e origens do planeta Terra, sua significância para o universo e a representação da humanidade para ambos, a obra aproxima-se da jornada de vida do filho mais velho dessa família, Jack, e através das mudanças entre a inocência de sua infância e as desilusões de seus anos adultos, mostra um ser que nada mais é que uma alma perdida no mundo atual, em busca de respostas – para a origem ou significado da vida – questionando a existência de sua fé.

Logo no princípio da película o filme nos propõe duas análises: uma através da visão da natureza, sempre em busca da sua realização e fortalecimento; e a graça, um caminho que “nunca promove um triste fim”. Com tal proposta verificamos que, enquanto a natureza posta-se de forma impiedosa à nossa frente demonstrando ser quem/o que coordena tudo ao nosso redor, a graça age como uma esperança calorosa que cede força e auxilia na nossa luta pelo decorrer dos anos. Para demonstrar as nuances entre as duas diferentes vertentes durante o filme somos constantemente impregnados de ‘natureza’ enquanto o questionamento de um ser maior e uma força movida por nosso íntimo continuam instáveis. Assim, mesmo quando as fortes e belas imagens maximizadas pela arte de Emmanuel Lubezki interrompem-se em prol das personagens, “A Árvore da Vida” não passa a apresentar ordem cronológica fixa, tornando-se um misto de sensações, pensamentos e ações durante toda a sua representação, envolvendo o espectador em uma outra realidade, tão íntima e real quanto a que ele encontrará ao sair da sala de cinema.

Assim como na Cabala, onde no pilar esquerdo da árvore rege o princípio feminino, no direito o princípio masculino e no central a ligação entre os dois, parte do enredo do filme tem como intenção diferenciar a forma como mãe, pai e o elo familiar influenciam a vida de Jack e sua infância – algo que pode também relacionar-se à tal ideologia visto a consideração de que o topo da árvore representa o bem e a base o mal: seus erros e aprendizados. As diferenças mais intensas estão entre os comportamentos extremos do Pai, severo e antiquado, que age sempre em busca do fortalecimento de caráter de seus filhos fazendo concessões sobre êxito na vida e integridade, mas ao mesmo tempo amoroso e arrependido, desejando sempre que eles sigam o caminho de seus corações; e da Mãe, uma mulher em contato constante com a natureza, sempre graciosa – percebem também o conflito de visões graça x natureza? – que propaga amor e equilibra a educação dos filhos cedendo-lhes total liberdade.

Mas, não há dúvidas sobre a verdadeira inspiração de Jack: seu irmão e companheiro R.L.. Alvo de inúmeros sentimentos, experiências e transtornos durante seu crescimento, passando por momentos companheirismos, abusos, maldades, ciúmes e devoção, ele age como centro de concentração do irmão mais velho da infância até a vida adulta, onde ele ainda busca a compreensão e aceitação de sua morte, que ocorreu aos 19 anos abalando o a família e deixando em fragilizadas a fé e necessidade de fidelidade à Deus devido ao luto.

O contraste do carinho e amor incondicional dos filhos pela mãe – uma relação fortalecida por olhares, brincadeiras e carinhos, seu respeito às ações extremas do comportamento do pai – que causam em Jack confusões, temores e fragilizam seu relacionamento com o progenitor e a lealdade, falta e arrependimentos acerca do irmão, torna-se ainda mais intenso após trechos em que são clamados como que direcionados à Deus os denominativos “Father” e “Brother” – onde percebemos que embora existam gigantes diferenças no relacionamento de Jack com seus irmãos e pai o que pode ser contestado é sua fé, não seu amor por esses – sendo também compreensível a confusão que instala-se em nós quando ouvimos Jack chamar com tanto fervor por “Você” – sem completa definição de se aquilo é uma procura pela proteção da mãe ou uma busca pelo auxílio de Deus.

Quanto à presença do conceito da Árvore da Vida Filogenética, uma forma de representar a evolução dos seres vivos através da representação gráfica das relações evolutivas entre várias espécies, é inegável a concepção de que o planeta, a natureza e vida presentes nele são um organismo complexo e misterioso, apresentado através da constante demonstração dos 4 elementos da natureza envolvidos desde com a família até em presença únicas, provendo impacto devido aos bruscos cortes, a surrealidade dos primórdios da vida, demonstração do envoltório do planeta perante o amplo universo, provando nossa insignificância. Tal beleza consegue ainda ser intensificada através da trilha sonora que apresenta-se como um envoltório para compreensão da maestria de nossa existência, seja ela oriunda de qualquer força maior, colocando a eterna luta da ciência e sobrenatural diante de nossos olhos.

A parte técnica do filme é outro artifício que envolve-nos na confusão entre as atmosferas de sonho, ilusão e realidade desde a intensidade da experiência visual que move-nos com emoção durante toda a reprodução, originária do trabalho do genial Douglas Trumbull e seus efeitos em Dan Glass; a montagem do filme com sua não-linearidade brusca e atemporal; e a proposital visão infantilizada de todo esse ciclo, que nos posiciona no mesmo nível de visibilidade e compreensão de Jack. Claro, que muita dessa emoção transpassada deve-se às atuações extraordinárias de Jessica Chastain, Brad Pitt e Hunter McCracken.

Brad Pitt aqui, foge de sua zona de conforto – àqueles que esperam encontrar um Sr. Smith: não se deem o trabalho de ir ao cinema – com uma atuação madura e expressiva ao extremo; acompanhada da surpresa provida pela excelente Jessica Chastain que, com poucas palavras e muitos olhares consegue transmitir todos os conflitos de um coração de mãe. Mas o verdadeiro trunfo é, na verdade, o jovem Hunter que passa-nos com veracidade todos os transtornos que a adolescência provoca em uma criança, todas as dores da perda de seu melhor amigo, todas as marcas que isso deixa.

Em resumo, “A Árvore da Vida” é um filme americano não-americanizado, a obra máxima de escrita e direção de Terrence Malick. Uma viagem universalista com tentativa de compreender o decorrer dos anos de evolução no nosso planeta, a realidade da vida, as emoções, devoções e a fé dos corações humanos na nossa capacidade, uma análise de à partir de que ponto e até qual momento nós precisamos crer em algo, na presença de um Deus. É uma obra que propõe que analisemos nossas vidas, nossas ações e principalmente nossa função no meio, demonstrando que nosso amor e fé devem estar depositados nas pessoas que nos cercam e definem nosso rumo, naqueles com os quais dividimos experiências, não somente em algo que nos reconforta.

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